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por Geórgia Alves Onze dias para recriar meu mundo. E eu aqui pensado em como alinhavar tudo isso. São tecidos tão distintos. Mas arrisco. Da janela central, à tardinha, vejo o negro passando manso! Fitas coloridas enganchadas na chinela. E ele tentando livrar-se delas. Eu tô de um jeito que quase me rio. É um sibilado acentuado do seu bailado casual. E o homem cismado ripando o solado de borracha no asfalto frio. E inventa outro passo em seu desafio. Desengonçado debocha com maneirices que gosta. Num traquejo molenga de magricela bangela bangela. Depois é a vez da moça, fininha e comportada. Vestida num longo de listras. Ela dança também mansa num cansaço desperto. Numa calma de passo suave de quem nem toca o asfalto. Quase voa a mocinha. Controla impulsos e os vultos vão todos atrás dela. Em seu rebolado, inventa um novo traçado e prende os cabelos com um laço. Num movimento apenas inventa com um toque um coque que vai bem no alto da cabeça. Pequeno, mas indisfarçável nela. cantos de página Por que se deram? Não soube o motivo?! Sei que há ali perfume... É isso o que fazem juntos?! Não te ofendo se te digo? Coragem, “seja sincero”. É que andei pensando Fazer de você meu abrigo Quer dizer, teu inimigo! Então não bem sabes que Amando se corre perigo? Então, não seríamos mais... Mais próximos e por isso Ainda mais amigos? Não seja tola, não é “Simples assim”. Nada é. Sem olhos de corvos Nem penas de pavão O mais natural é que não. Pagarei de “kamikaze” Se na minha compulsão Perguntar o motivo? Sim, no mínimo, curiosa Incurável. Alguém sem freio. Mas, vá lá! Eu sacio. O amor é de um atroz Egoísmo. Você me quer Bem, enquanto não Fizer amor comigo Depois disso, natural É correr o risco De querer mais Um do outro. Tipo “até o infinito”? E não será vaidade a tua? Não ironize, só raciocine comigo: Amor no primeiro ato da coisa Exige cortar o cordão, sacrifício. Dar o nó e criar o umbigo... Então, por que tantos poetas Por aí, a dizer: não vivo sem isso? Fingem tão somente esse apego A um porto seguro. De fato, Estão atados àquilo pela partida Somente assim dão valor À “liberdade perdida” Não é apenas bom, vá por mim. O ser humano, em geral, está muito Mais construído no apego à dor Pois estava eu bem enganada Pensei o amor tratar-se de Sentimento altruísta, prazeroso... Ah, isso o que reivindica é amizade Agora falei a verdade. Desse jeito, Que tal mantermos assim? Amigos para sempre, Amantes até o fim...* *Dedico esse poema a um amor novo. Muito embora vá pelo caminho oposto, em sua contradição e humor, como um ser humano. Discursa sobre onde os amantes devem estar. O abrigo da amizade e o uma espécie de tensão necessária à paixão. Em outras palavras, chama mantida pelo respeitomútuo. Coluna dacordafelicidade GEÓRGIA ALVES é jornalista e especialista em literatura brasileira.
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