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por Geórgia Alves Não, os brutos não amam. Nem podem supor, por esses acasos da vida, quando estão sendo amados. Não são apenas insensíveis, são grotescos mesmo. No vocabulário deles não cabe um verbo que não venha na primeira pessoa. Tudo pertence a eles. Meu carro. Meu pai, minha mulher. Minha mãe! Não, os brutos não pressentem a chegada de uma brisa. Só se apercebem quando os animais do pasto voam em círculos sob suas cabeças. Ou os destroços atingem-lhes em grande prejuízo. Não, os brutos não sabem da missa um terço, porque para eles tudo deve inteiro. É tudo deles e para eles. Não são apenas ególatras desmedidos. São também aqueles que ignoram a presença do outro por mais próximo que esteja. Não, os brutos jamais amarão. Jamais sentirão o pequeno deleite de perceber entre suspiros e palpitações a presença da pulga na ponta do lápis, Cortazár. São incapazes do próximo passo, mesmo que por motivo de ir comprar o jornal na esquina porque o tal matutino se assoma por sua porta pelas mãos dos obstinados porteiros em gestos vespertinos de domingo. Não, nem por lamento os brutos amam. Apenas por remorso alcançam aquilo que imaginam chamar-se de amor por uma fraqueza latente que lhes lembra o sentimento de desamparo. Não sei o que será dos brutos que descendem dos brutos. Sei que estão sempre prontos para estufar o peito e exibir seus pertences mais caros como consolo dos seus vazios. Empáfia alimenta o ego gigante, de uma alma distante. Do outro lado do mundo deve haver outro tipo de “distúrbio”. Um jeito que eu conheça e reconheça até porque é de uma dúvida profunda. Tanto silêncio que faz morrer tal qual aventurar-se em penhasco desconhecido. Ir aos poucos caminhando até não sei onde apenas por alimentar a alegria do pequeno próximo passo. Numa trajetória que só pode levar a vida inteira de tão lenda e meticulosamente planejada. Vivida bem aos pouquinhos e saboreada sem ansiedades e inseguranças ou projeções. Os tolos amam com a delicadeza de um instante. De palavras incertas publicadas. Muros pichados. Pinturas refeitas de carros pelas fotos coladas em papel adesivo. Como amam os tolos. Os sem malícia. Comungam de uma despretensiosa atenção e acabam tendo todos os olhares voltados para seu particular universo interno. Quantas curiosidades despertam em suas construções sólidas de sentimentos puros amalgamando e cimentando episódios de vida com o melhor dos pensamentos. Bem levar a vida. Aproveitar o dia. Assoviar por aí. E jamais imaginar que uma palavra amarga pode corrigir o sentido das coisas. Apenas desejos dos mais puros podem atraí-los. Porque com eles de imediato se identificam. São alma pura. Pura calma. Ternura absoluta. Os tolos são como copo sempre meio cheio. Metade da água mais limpa e a outra metade o ar que precisam... Não tiro apenas aos tolos e despretensiosos que tanto amam a vida. Tiraria as luvas, as meias, o casaco, as vestes cansadas, desabotoaria os botões, desligaria os outros sentidos para ouvi-los em sintonia fina. Rezo para que essa música que vez em quando ainda canto possa trazê-lo um dia para mim. Um homem de sentido apurado. Liberdade em eterno prazo de validade e com a pressa apenas de bater o próprio recorde... Deixar- se levar para longe pelo caminho inverso da vida. Como os românticos e eternos apaixonados. Coluna dacordafelicidade GEÓRGIA ALVES é jornalista e especialista em literatura brasileira.
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