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O Sono dos Justos
por Geórgia Alves

 

O sono dos justos não deveria estar reservado apenas a estes. Como nenhuma justiça há no mundo... Tal qual antena, sintonizo o canal e sigo. Sem pausa. Repouso com um olho aberto e outro fechado. Um nos filhos, outro na estrada. Mas esse estado de alerta tem cansado um pouco... Não, não me queixo. O juízo está no lugar certo. Jamais desceu aos pés. Mas embora adormeça sem vontade de dormir, acordo sem vontade de levantar.

Será que alguma palavra me escapou na tradução?

Posso estar acordada para muitos sentimentos bons. O problema é que eles parecem parte de uma espécie de teia e interligam-se de modo a provocar a maior interferência. Esse mundo não justo. Não, novamente, não me queixo. O fato é que não posso usar aqui uma palavra simples como cadeia. Deve haver uma melhor. Teia ao menos traduz também a fragilidade e lembra sua origem de ter sido cuidadosamente estruturada por um inseto feminino.

Inseto. Foi o que escapou... Nem esperança, nem formiga. E é difícil aqui descender com todas as letras o nome do tal bichinho... Aracnideamente estou tecedeira. E o pior disso tudo é que o espírito ainda me parece preso. Voltei ao pavilhão errado. Hall de palavras que desperta sentimentos nada positivos. Recupero. Revejo e reverso.

Vou tentar ser um pouco mais justa comigo: acordo e ando até a cozinha. Ligo a chama e espero a água ferver. Irei ao banheiro, farei o café e o estado autômato assenta em mim.  Vestirei a roupa de baixo combinando com a de cima. E as peças de dentro com as que vão fora. Método ajuda e com o passar dos anos fui ficando cada vez mais craque nisso. Escolho sempre a cor pelo dia da semana. E tento colorir esse mundo. Nem sempre consigo fugir do preto, branco e cinza... Tecidos!

Dias tecidos assim, automatamente. Porque se essa palavra não existe precisava ser inventada. Ouso assim. O estado autômato não tem parentesco com automático. Não, não me queixo, nem desafino. Só vou tecendo cada fiozinho de dia. À noite, não durmo. Não me queixo, mas também não durmo. Não é justo. Comigo não é justo.

O outro olho, afora o que mantenho sobre os filhos, está na estrada ainda naquele espírito. Um certo cansaço... Antes, quando a dor era tão grande, buscava uma palavra que me salvasse. Hoje busco imagens. Como quem quer se salvar e apenas dormir, olho fotos antigas e teço idéias novas. A música continua aqui, nunca se foi. As mesmas que faz anos tocam para me ninar. Sempre soube que seria assim. O estado de ser eu mesma é às vezes vazio e na maior parte cheio de mim.

Não quis usar um tom tão maior. É azul... C’est un blue ... Parte das cores que vou sempre escolher para mim. Combina comigo como pão e vinho. Café com tapioca ou almoço sem jantar num domingo. Sei que a espera não estava mais cabendo em mim. E tanta tristeza pelo que não tive a chance de ter não me faria mesmo feliz.

Por isso inventaram um gesto tão simples para ir lendo até concluir um livro. Virar a página e ver que as palavras empregadas aqui não andam em círculos. Cruzam-se aqui e ali, mas o pano de fundo será sempre dacordafelicidade. Tolamente vi que este estado lúdico e infantil mesmo, é muito mais justo comigo. Talvez agora eu durma.

Coluna dacordafelicidade

GEÓRGIA ALVES
é jornalista e especialista em literatura brasileira.

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa