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Calendário
por Geórgia Alves

 

Um sopro levinho de vento paginou as folhinhas prateadas sobre a prateleira da sala, em frente à janela. Outro mais forte, vindo do norte, derrubou a estrutura feita de papelão e couché, ainda na página do mês de fevereiro, com uma bonita fotografia do parque paulista, o Ibirapuera. Abriu-se no mês de maio como que para sempre. Dali de onde estava desviei os olhos do romance policial de autora conhecida e enxerguei o que ainda não vira. Já haviam se passado vinte e sete dias do mês. Mania triste essa, esquecer de virar as folhinhas!

O dia 25 estava lá. Grifado com uma cor fluorescente. Há 69 anos, uma jovem de apenas 19 (ou 20, quem sabe?) via publicado no semanário carioca Pan, o seu primeiro conto. Era 25 de maio de 1940. Anos curiosos aqueles... E o editor e criador do semanário sabia disso. Italiano! José Scortecci. A partir 26 de dezembro de 1935. Aliás, sobre a revista, tanto se falou àquela época quanto pouco se sabe hoje.

Ignorância sobre uma imprensa livre que causava tamanho estranhamento a ponto de obrigar seu guia a prestar esclarecimentos. Numa elegância também inovadora para a época. Vide a edição de 19 de março de 1936, na qual Scortecci reafirmava: “Novamente nos vemos obrigados a declarar que a revista PAN é completamente independente; não pertence ela a nenhum partido político, não defende, nem ataca idéias de nenhuma índole”. Mas vamos aos colaboradores:

Silveira Bueno assinava a coluna Cartas de Amor sob o pseudônimo Frei Francisco da Simplicidade. Além de outra, Lições de Português, que também ia ao ar pela Rádio Difusora de São Paulo. Monteiro Lobato que tanto lembramos como autor infantil, mas nas páginas da revista foi engajado defensor da nacionalização do Petróleo e o também escritor, além de poeta, Mennoti del Picchia, titular da seção O Imperativo da Hora, com comentários políticos e dos costumes da época.

Mais Benjamin Costallat, numa criativa e ousada investida sob o título de Mademoiselle Cinema, que virou livro e foi logo recolhido como pornográfico e escandaloso. Mesmo assim ainda conseguiu se multiplicar em 60 mil exemplares vendidos. "Sua verve ácida e ao mesmo tempo bem humorada, era a pena que melhor retratava, naquele tempo, as contradições da vida social e mundana do Rio de Janeiro" explica a publicação Amigos do Livro.

Com todos esses e outros que não citei, o neto de Scortecci, João, ex Diretor da União Brasileira de Escritores, vice presidente da Câmara Brasileira do Livro e conselheiro do Ministério da Cultura, hoje membro na CNIC (Câmara Nacional de Incentivo à Cultura), quando fala de forma resumida da publicação, faz questão de destacar "A revista que teve a honra de publicar o texto de estréia "triunfo" de Clarice Lispector".

O conto foi a primeira visão da expressiva escrita daquela jovem que por tantas vezes tentou implacar suas histórias, que nunca começavam com "era uma vez", no Diário das Creanças, do Diário de Pernambuco. Ela que tantas vezes disfarçou a própria idade para ser aceita nesses lugares que, em propriedade, já estavam nela.

Confesso que minha extremada autocrítica ameçou não perdoar-me. Quase não ia entregar o texto, por causa dos dias de atraso. Não fosse aquele vento mais forte derrubando o calendário... Um outro lado meu insurgente argumenta, ainda enquanto escrevo essas linhas: "não posso ter me antecipado em um ano?". Talvez. O fato é que é estranho estar atrasada. Até onde lembrava, minha mais forte mania, era antecipar-me. E digo isso por registros auditivos dos queixumes maternos diários, ainda da primeira infância. Bem, aqui está o texto e um tardio pedido de desculpas por esses quatro meses de silêncio. E olha que tem ventado muito no Recife! 

Coluna dacordafelicidade

GEÓRGIA ALVES
é jornalista e especialista em literatura brasileira.

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa