principal  |   colunistas   |   Geórgia Alves

Prosa de volta
por Geórgia Alves

 

No livro de Robert Mauzi, L'Idée de bonheur dans la littératura et la pensée fraçaise au XVIIIe. siécle, Albin Michel, 1979, pp. 261/262. Está seguinte citação: (Mirabeau faz em carta ao amigo Vauvenargues em 1738 dizendo dos princípios que norteiam sua conduta):

- desfazer-se de preconceitos,
- preferir a alegria aos humores,
- seguir as suas inclinações... Ao mesmo tempo em que as expurga.

É isso. Expurguei algo preciso. Necessário. E minha prosa está de volta. Recuperadas algumas metas de vida: lembro-me de ter escrito uma vez que “metas recuperam o sentimento de constância, da existência de leis, seja até mesmo ‘da física’ sobre um universo abstrato”.

Às vezes é a física e não a palavra que move e captura. Um movimento, uma inércia, uma sensação de “mola encolhida”. E fisicamente somos forçados a adquirir, gerar um movimento. Vide Miró. O nosso Miró... Há horas em que palavra nenhuma salva. Ah, há. Mas as idéias permanecem ali. E se movimentam. Como moléculas. Graças a alguma latência! Misturam-se: “condensam e somadas viram partículas”. E vão gerando novos sentimentos, que também são assim... : Um pedaço do que havia um pedaço do que começa a existir.

Eu vou, então, me tornando algo novo. Ninguém é mais o mesmo – ao banhar-se no rio - com o passar dos dias. Há sempre um jeito novo de sentir a vida, lidar com ela – a realidade. E com ele – o sonho.

Já estive entre o mar e desfiladeiro. Já percebi o mundo com alternativas mínimas de sobrevivência e – mesmo sem querer – continuei a caminhada. Eu, simplesmente, fui indo. Foi indo, num movimento decantado. Numa ação, às vezes sem palavras. Uma vez que me falte, não serei mais palavra. E, no mesmo instante, estou salva!

Essa constante inconstância, uma hora acalma. Essa eterna mutação, de uma geração que flui e que foi gerada pela sucessão de fatos inesperados, segue de acordo com princípios, pelo fato corriqueiro deles existirem primeiro. Precederem.

Aliás, preceitos, conceitos, maneirismos adquiridos e traduções de mentes obscurecidas. Ninguém está livre disso. É estranho como perceber – hora em grau intenso, ora em tímido brilho de longínqua estrela – que a mesma criatura pode reagir de maneira tão profundamente diferente, dada as circunstâncias tão semelhantes...

Curioso: Esse é o caminho da criação dos fatos. Idéia! "A vida vai se tornando coisa feita por atos impensados".

Não basta a curiosidade. É preciso humor. Sempre humor. A mania de rir da vida e da própria “criança” desajeita, cheia de incertas e de vôos que terminam em “pequenos desastres”.

E como são ternas e certas as intuições, as emoções que sentem as crianças. Como nós fazemos delas seres inseguros de si mesmos, só por contestar ou questionar (por rejeição, sim, muitas vezes!) o que sentem. Porque o sentir delas é mais puro. Elas podem e sempre optam por caminhar do lado oposto. Em direção ao interior, às casas de praia ou de campo, ao invés de querer visitar os arranha-céus.

Criança é como passarinho que faz coco no fio de alta-tensão e – porque resultado de sementes e grãos – vira ninho. Tão comum no Agreste. Tão visível na rede elétrica. Mais graciosos que as moitas produzidas por arbustos do “velho oeste”.

Não é justo. E eu, em definitivo, gostaria de inventar um mundo com justiça. Não! Não é possível manter o equilíbrio na ponta de uma espada. Não! Não é esse o mundo que sonho para os meus filhos. É preciso estar atento a certos sentimentos “de desamparo”. Alguns deles não duram para sempre. É preciso dar ouvidos ao que se sente, mas se deixar levar – apenas - pelo melhor caminho. Escolhas. A vida é feita de escolhas. E delas somos nós mesmos os únicos responsáveis. E não o contrário.

Coluna dacordafelicidade

GEÓRGIA ALVES
é jornalista e especialista em literatura brasileira.

  Voltar à página inicial

O filósofo das imagens

Vértebra exposta

O ás de espadas de Umbilina e Cícero Belmar

Lampião, o santo forte do cinema brasileiro

Carnaval de cores invisíveis

Ela e o Tuaregue

Bebendo a verdade

A Hora da Estrela

Sobre o amor

Gaia e Gozo

Amor e motivação

Um livro a mais em mim

Kerouac e a força de Kristen

Sophia

Red or Wine?

A última Peça

A luz Azul

O Amor é filme

Argamassa

Tsunami

Línguas de Fogo - De Claire Varin

Perdão

Idade da Razão

Amor Medido

Jingle Bell de Mutantes

Alguém me ensine a não amar Bob Dylan!

Café Pequeno

24 horas passageiras

Atire

Primeiro Ato

Anjo Caído

Cartola com café

A Mala Hora

Antes: a Amora

Por Princípio

Janeiro: A menor concha do mundo

Idéias soltas em páginas presas

Sendo sincero

Passos até a esquina

Alturas

Irisada, azul e terna...

O Sono dos Justos

Colar de Pérolas

Calendário

Não alimente com pedras

Caleidoscópio

Boa Vista

Good Bye, Mr. Autumn

Centro: "é preciso fixar o parafuso central para que a forma permaneça"

Círculos concêntricos em sintonia fina

O aleatório na agulha e no calor da terra

Prosa de volta

Nomadismo

Águas de Março

Umbigo de vidro

Café com letras

Abril ...solar!!!

Sobre o perfume e a vida que transpira

Uma aprendizagem ou os livros que despertam o prazer de ler

Caldas para a literatura infantil

O universo do livro infantil

Os infantis de Clarice Lispector


Flash player required!






Banner

Banner




quem somosfale conoscoportfoliolinksclipagemhotsites

Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa