|
por Geórgia Alves A menina tem doze anos e já leu 5.386 páginas do fenômeno Harry Potter, da encantadora senhora J.K. Rowling. Sem falar em todos os livros propostos pela escola como Os miseráveis, de Victor Hugo e O nariz, de Luís Fernando Veríssimo e outros. Em média tem “devorado” de quatro a cinco livros no período das férias. Circular na bienal para ela que observa com atenção e aproximação aos responsáveis pela edição dos livros que adquire nas livrarias ou escritores ali circulando e falando nos auditórios de portas fechadas cheios de adultos e com ar condicionado, é simples. Muito simples. E o mistério se desfaz em quarenta minutos feito bolha de sabão. “Mãe, agora já podemos ir para casa. Acho que já vi tudo”. Viu não, e ela sabe disso. Sua fala é uma reação imediata aos momentos “livros didáticos”, que são na verdade uma derrama de tinta sobre papel duro vendidos ali a cinco ou dez reais. Não é o que a menina gostaria de ver. Tocar. Achou “legal” a gráfica que imprime livros rápidos e o anfiteatro onde alunos e professores interagem com autores e ainda uma cozinha especialmente preparada para tornar-se ponto de encontro, o mais agradável. O cansaço dos olhos da menina está na tentativa de tornar “feira” o ambiente onde se pode pensar a literatura para um público maior que o que já freqüenta livrarias, como ela mesma. E o que não freqüenta. Viu muitos lançamentos, a menina. A própria escola adotou edição especial da editora SM, que é paulista, e está presente no Recife também pelo advento da Bienal. Os livros estimulam o pensamento. Ela sabe de rotina de venda de livros pelo próprio pai, como depois do lançamento são vendidos com empenho. Ou do pai de uma amiga que é dermatologista, mas pelo incentivo da escola também ele escreveu e lançou pela “Editora da Universidade”. Luiz Gonzaga de Castro e Souza Filho, diz logo a orelha do livro, não é um intelectual. Que importa? Importa que imprimiu. Publicou. Uma história que fala de originalidade. A originalidade de Liginha que ao contrário dos amigos da escola, mora em casa e não em apartamento. E da própria escola feliz que incentiva brinquedos populares e não o consumismo de brinquedos da moda. Na certa foi essa palavra “originalidade” que buliu tão rápido com a percepção da menina... Talvez seja nela diferente a velocidade do pensamento, ao perceber em alguns corredores o ataque direto, frontal para um tipo de “produto” que entristece a cabeça da menina à espera de novos livros. Já acostumada ao assédio dos shoppings, para ela, não há nisso nenhuma novidade. O mérito de um evento assim continua sendo a reunião de cabeças pensantes e boas propostas que, claro, ressalva-se. E salvam o espírito lúdico e o desejo de quem vai buscar o que é, realmente, novo e intenso como uma descoberta literária. Seu mistério. Mistério, por exemplo, que está no coelho pensante, de nariz cor-de-rosa de tanto mexer e mesmo de “barriga cheia” escapa em busca de mais. Ali, por exemplo, uma das grandes livrarias teve a boa idéia de destacar toda a obra de Ziraldo. A menina precisou de menos tempo que a média para perceber o que estava ali de bom e novo. E de nada interessante ou despertador de instintos de uma “curiosa” e leitora voraz. Muito embora, compreendeu também que é preciso, como nos livros, olhas nas “entrelinhas” dos corredores de uma feira ou bienal. Lição que também deve ensinar professores, veículos de comunicação e as editoras realçando conteúdo mais humano e completo, no lugar dos livros mais imediatos, retos. Coluna dacordafelicidade GEÓRGIA ALVES é jornalista e especialista em literatura brasileira.
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
|