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AURORA

por Alexandre Furtado

 

        O espelho d’água segurava as casas em sua pele, lisa e movente, e conhecia as pontes por baixo, lento, lento. Mais tarde soubera de como era alagadiço antes, por essas bandas, como pântano ou mangue, tudo mais calmo, sem rodas e passos, os fins da ilha de Antonio Vaz, muito tempo atrás. De lá, as capas de aterro puxavam o tecido urbano e o caminho aberto devagar, mas não para os janelões, estes eram abertos ao sol, o nascente nos azulejos, a camada de tinta e as paredes em estuque. Pois a elegância seguiu certa vez o rio e a rua, não de ponta a ponta, mas o trecho na pena dos poetas, do cais até onde a vista se perde. Alguns de seus originais foram retirados, em vez deles, um sorriso com faltas. Aurora é senhora banguela.

        O que foi, agora? Perguntou-se calada, olhando o fofo pelo retrovisor. Sobrancelha arqueada, nada se mexia. Então balbuciou algo e de longe o sorriso na boca, como se resolvesse o problema. É que de fora via-se apenas o carro, com seu vidro um tom mais escuro, e escutava-se nada, pelo motor silencioso. A cada movimento ganhava simpatia, a limpeza, o brilho do metal, e também o frescor lá dentro.

Do alto, algumas pessoas em quase desespero alimentavam-se da visão de oásis, o carro como majestade. Projetava-se naquela imagem a ideia de segurança. E o descanso pelo conforto. Era como se a guerra urbana os fizesse reconhecer no contraste total da realidade, o carro. E também a pessoa que o conduzia, elegante a uma revista de moda.  O Recife, o verão e o trânsito parados.

        E mais um pouquinho. Todos avançavam meio metro, a paciência, inversamente proporcional. Limites totais, a gritar, ou a sair correndo e chegar aonde andando. E o grande ônibus lotado entre o rio e o casario, sob o sol de quase meio dia, imaginando todo ele a dificuldade de se locomover, uma massa composta de várias unidades, todas paradas, ligadas, queimando gasolina,  as buzinas e tudo isso começava a hipnotizar em tom de raiva a todos que se encontravam ali.   

        Também a fuligem que descansava no corpo comprido da rua, da mesma forma que o barulho silenciando o passado nas varandas. A rua, um mero detalhe assim. E as pontes de ferro, e as poucas árvores. No fundo, ninguém se apercebia se havia algum tempo por ali, quem habitara aquelas casas, ou ainda, como deveria ser antes, bem antes, ainda que província, porém mais calma. Então, os detalhes de beleza sumiam diante do ônibus, e dos que esperavam o sinal verde, das pessoas que emperravam verdes, de raiva. Recife ali como grande garrafa verde, assim no mês de dezembro.

        Mas nada disso, nada, aborrecia aquela senhora e seu carro. Ela estava para a rua e seus detalhes. Cabelos penteados para trás, maquiagem discretamente no lugar, aos muitos da rua, uma coisa inatingível. E, então, o mundo de fora, o rio assoreado, mal cheiroso, alguns edifícios pichados, e gente, muita gente impaciente pelas compras. Poucos imaginavam qual o perfume francês estaria usando, de qual família, se o sobrenome pesara-lhe em geração passada, qual a atividade, ou ainda, esposa de quem. A fantasia humana nos salva da monotonia, para alguns, o que sobra, mas a fantasia não salvara belezas em Aurora.

Entretanto, algo inusitado chamava atenção de duas pessoas no transe hipnótico. A unha esmaltada indicava certa quebra de miragem. Qual a razão? Aquele pedacinho vermelho e cumprido do corpo era nervoso. E foi ganhando frenéticos movimentos e em riste indicando alguma ordem imediata, diante da desordem, a cidade em gritos de socorro. Acontecia o que? Poderia força qualquer da natureza roubar a perfeição dela, de seu carro, de sua toda beleza? Então, circulares, tornaram-se hélice. Deixaram de ser para frente e para trás, e com a mão no alto, círculos, como se indicasse também impaciência, como se indicasse que ela também fosse humana, e salivasse e urinasse e escovasse os dentes e chorasse. Seria o telefonema? Alguma seriedade?

Assim como ninguém ali alguma vez soubera se Aurora tinha carroças, que Aurora segurava nos braços a sorveteria Guemba, e os jovens do antigo São Luiz, ou o vistoso Clube Internacional do Recife e o Banco Central, mas a quietude ninguém sabia. Sim, a quietude já se aconchegara, e partira pela poda da beleza, pela pressa, pela modernidade e as compras últimas de natal, tudo que traz coisas muitas, retira esquizofrênica a calma, o traço de saúde. Ninguém jamais soubera o motivo da senhora, pois de um lado uma aurora, do outro, o sol, no meio a água deslizando, deslizando. Interessante a percepção do homem, tal a da senhora sentada e cansada e seus pacotes de presentes, observando a outra com sua mão moderna, agitada. E mais, o cenho fechado, tirando-lhe o ar blasé e a testa franzida, tirando-lhe da capa da revista de moda, pois não combina, a foto tem que ser perfeita, para fazer a gente sonhar. O que acontecera?

Quebrando mudez, a senhora com seus pacotes comentara com o passageiro ao lado, de forma quase inaudível, sobre o que faria para estar assim tão nervosa aquela senhora atrás do volante, atrás da maquiagem, dentro do carro refrigerado, em cima do banco acolchoado, ao lado do outro carro, cheio de gente sedenta, faminta e cansada. Os olhares entre eles convidaram outros no ônibus para o mesmo exercício humano, e começaram pouco a pouco a observar, não mais a realidade, àquela com ares civilizados, mas, quase como vingança, o motivo de quebrar tamanha aura de beleza.

Um acidente, chocados dois automóveis e uma moto. Em volta curiosos, alguém no chão esperando socorro médico. No afunilamento, o carro importado avançara algum metro a mais do coletivo. Mas a senhora não se acalmara. Então foi quando se viu melhor, a cadeirinha de criança no banco traseiro. Tudo explicado, ainda que discretamente. Devia ter feito algo, malcriação. A mãe, ou a tia, ou a avó, seria o que dela? No legítimo dever de educar. Pois se fossem mais educados, os rios menos poluídos, mais árvores no passeio público, o patrimônio preservado. Pois os homens atropelam-se, bem como as suas ruas.

Certo alívio nos observadores, na verdade, estaria a senhora no cumprimento de seu dever materno? Então, outros movimentos sucederam. A boca indicava que falava com irritação, e também agitados os braços, não mais as mãos. Os gestos por si mesmos. E o mais improvável, o vidro subitamente abaixara, recorrendo ao cigarro, as unhas bem polidas e pintadas. O que fizera a criança para deixá-la assim tão nervosa, pois o trânsito não o era, muito menos seu carro. Enquanto, o calor e o barulho. Tudo parado.

Quando abriu o sinal, escutou-se um leve cantar de pneus, e o design sobressaiu, com seu prata de foguete, os vidros levemente esverdeados, os bancos em couro bege, adiantou-se rápido, dessa vez, com pressa, com certa impaciência, certa raiva, enfim, com a mais revelada humanidade ... e na curvinha da ponte, em direção ao Santa Isabel, mostrou-se sutilmente. Se champanhe ou marrom, eram as fitinhas vermelhas nas orelhas o combinado, da mesma cor das unhas da senhora. O poodle latia frenético, pobrezinho, pelo estresse pelo qual passara, pobrezinho, pelo desconforto da agitação, pobrezinho, pela falta de, de, de, bem, de humanidade. Com a mão, solta certo cinto e faz pular o bichinho para colo seu, em busca de carinho materno, logicamente.

O carro avançara ainda mais, deixando surpresos alguns dentro do ônibus, lento e velho, e lotado. Não havia brisa, incandescências em toda a parte, naqueles dias que só de pensar causava calor, só em pensar em árvores e bolas natalinas, a preguiça. Então, solto e livre e amado, sem o mínimo de temperatura elevada, o pequeno notável voltava ao banco detrás e como se dissesse adeus aos mortais, saudava a quem quiser com um inaudível latido, reprimido imediatamente pelas unhas vermelhas que já se levantavam para pedir-lhe calma, pois, era visto também de longe, o carro sumindo pela ponte, sem barulho, uma nave espacial.

Aurora não registrou isso, precede ao nascer do sol, como uma rua precede a outra. Entre elas, o rio das capivaras, atolado em lama e dejetos, nos desenhos de Abelardo, em linhas cabralinas, inesquecível em Bandeira, Mauro Mota. O sol torrava os cantos da rua, o Recife todo e ônibus esvaziava-se na próxima parada, a senhora esbaforida, com seus pacotes de natal, descia devagar, removendo seus dentes postiços diante dos altos edifícios, sem qualquer elegância. Aurora em algum momento já fora altiva. Esbaforida, suporta banguela os carros, os passos, pergunta-se sem histeria canina, para que tudo isso, e mais, até quando, até quando ...

 

Coluna Letraviva

ALEXANDRE FURTADO
escritor e professor

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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa