Visões de lilith em Cida Pedrosa

Karina de Almeida Calado[1]

 

O presente artigo é fruto da pesquisa em Literatura e Direitos Humanos, junto ao Núcleo de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa – NESC – UPE, liderado pela professora Graça Graúna[2]. O estudo resultou na monografia intitulada A mulher na formação da identidade literária em Pernambuco: a voz inquieta de Cida Pedrosa, defendida pela autora, em junho de 2009, na UPE – Campus Garanhuns, sob orientação da professora Graça Graúna. O objetivo deste trabalho é apresentar o papel da mulher na poesia de Cida Pedrosa, pernambucana e advogada de direitos humanos. Em sua poesia, encontramos a força da escrita da mulher pernambucana, a luta pelos direitos humanos, pelo acesso à literatura e pelo direito à palavra.

A literatura é uma necessidade universal das sociedades humanas. Constitui-se em um bem indispensável e é um direito de todo ser humano. É um instrumento de luta pelos direitos humanos, inclusive um meio de denúncia contra sua negação.

Segundo Antonio Candido (2004, 191), “A luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis de cultura.”. Assim, percebemos que a luta pelo direito à literatura está ao lado da luta pela garantia de tantos outros direitos fundamentais do homem, como: a saúde, a educação, a moradia, a comida, o vestuário, a liberdade e o amparo da justiça.

 Ao estabelecer a distinção entre bens compreensíveis, os dispensáveis, e bens incompreensíveis, os que não podem ser negados a ninguém, Candido (2004, 173) afirma que precisamos entender como bens incompreensíveis “não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual.”.

Candido (2004, 174) salienta ainda que a “literatura é uma manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação”. Nesse sentido, a literatura está presente em todas as pessoas, sejam elas analfabetas ou eruditas, através da criação ficcional ou poética, manifestada como anedota, causo, história em quadrinhos, noticiário policial, canção popular, moda de viola, samba carnavalesco, dentre tantas outras manifestações literárias.

A literatura é também responsável pelo equilíbrio social, pois além de atuar como ferramenta poderosa de denúncia, instrução e educação, é também um instrumento de humanização. Ela confirma o homem em sua humanidade, tornando-o mais reflexivo e compreensivo acerca dos problemas com seu semelhante e com o meio onde vive, libertando-o do caos, formando sua personalidade. Age, inclusive, em grande parte, no subconsciente e no inconsciente das pessoas. Escreve Candido (2004, 175) que “a literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.”.

Nesse sentido, podemos pensar os direitos humanos a partir da construção da mensagem na obra literária, de modo que, em toda produção, o inexpresso ganha forma na transformação de palavras, que surgem do nada, e se dispõe num todo articulado, carregado de significados, sentimentos, sentidos, forças e lutas. Uma vez que “os direitos humanos podem dar à literatura uma força insuspeitada. E reciprocamente, a literatura pode incutir em cada um de nós o sentimento de urgência de tais problemas.” (CANDIDO, 2004, 184).

A produção literária de Cida Pedrosa confirma as palavras de Candido. Poeta de incrível percepção, ela alia a sensibilidade do olhar de mulher à observação objetiva dos problemas de nossa sociedade.

quando o tempo do branco chegar

não terei gaiolas

gatos siameses

ou cachorro poodle

com coleira de marfim

 

com certeza

direi poemas indecentes

falarei de revoluções inacabadas

de lugares que mapeei com minha alma (PEDROSA, 2005, 47)

 

Em posição de guerrilheira, Cida demonstra sua força e coragem, construindo uma poesia ousada, impactante e transformadora de versos em retratos que denunciam a condição humana, especialmente a condição da mulher no mundo.

 

mãos enormes

as de geraldo

 

tão grandes que não cabem

no corpo magro de tereza

(...)

mãos enormes

as de geraldo

tão grandes que se espremem nas algemas

e não podem mais acenar para tereza

que nesta hora é conduzida

no carro do IML

para exame de corpo de delito

sob suspeita de estrangulamento (PEDROSA, 2009, tereza)

 

A poesia de Cida Pedrosa é escrita sob o olhar de quem está no interior do espaço analisado, uma visão mestra das cenas e dos sentimentos, que, ao mesmo tempo em que apresenta o particular, constrói o universal através da exposição da paisagem urbana, o litoral, o cotidiano e o sertão: “as impressões mais íntimas que lhe servem de casulo” (EDUARDO MARTINS, 2005, 124).

Sua poética surge a partir do simples, do comum a todos. Não é dicotômico dizer que, com a utilização de palavras simples, sem o apelo ao exagero das palavras rebuscadas e do romantismo, os quais, equivocadamente, poderiam ser de se esperar de palavra de mulher, constroem-se versos de sensibilidade ímpar e de intensa luta. As palavras de Cida se transformam em poemas com uma mensagem de reflexão incrível sobre o ser humano e o espaço que o circunda.

Eduardo Martins (2005, 127) salienta que a poesia de Cida expõe “a simplicidade que alcança força e complexidade nas fortes pinceladas despojadas por ela sobre o papel em branco”. O zelo pelo trabalho do verso é marca de sua poesia. Comenta Alberto da Cunha Melo, em crítica literária incluída no livro Gume, (2005, 122):

Poetisa que é, ao mesmo tempo, valor reconhecido e musa de toda uma geração, Cida Pedrosa reafirma, com seu novo livro o compromisso que a afasta, como já disse, de algumas características de sua geração, pelo menos em seus começos, ao assumir cada vez mais o que João Cabral de Melo Neto chama de trabalho de arte, em oposição à perspectiva intuitiva ou de inspiração, que se tornou comum em fins do século XVIII, na Alemanha. (...) Saúdo, pois, O Gume, que vem enriquecer o patrimônio poético de seu tempo, instigando com sua proposta a discussão contemporânea de uma arte verbal, a poesia, que é a quintessência da linguagem humana.

 

Marco Camarotti (1986, 7), em prefácio do livro O Cavaleiro da Epifania, comenta que a poesia de Cida é um grito de denúncia, que se revela a partir de sua reflexão acerca de temas como o amor, a morte, a fragilidade humana e a efemeridade da vida. Raimundo de Morais (1986), na contracapa de O Cavaleiro da Epifania, escreve que esses temas simbolicamente representam a “Eternidade em Ciclos, a negação do vazio, ou da vida como um beco sem saída”.

 

(...)

quando de mim roubarem os dias

e a morte vier a mim pedir morada

prenderei a vida à curva-estrada

para que entoe gritos de alforria.

quando de mim roubarem os dias

e a mão sacra apunhalar-me a face

encharcarei de sangue a sagrada arte

sitiando a sorte vil da poesia. (PEDROSA, 1986, 15)

 

Ângelo Monteiro (1986), em orelha do livro O Cavaleiro da Epifania, comenta que Cida é autora de versos marcantes e vive mais de símbolos do que de conceitos. A representação de imagens acompanha toda sua trajetória poética. Em metáforas engenhosas, as palavras são dispostas em poemas como A face e o sertão, que recriam as imagens e as memórias do lugar onde seu eu-lírico escreve e, muitas vezes, confunde-se com seu eu-biográfico, em representação de sua identidade.

Eduardo Martins (2005, 127) salienta que as imagens na poesia de Cida Pedrosa são colocadas uma sobre a outra de maneira a construir “uma poesia que se vê como foto em movimento nas diversas leituras do quadro real.”.

o azul toma conta da face

que transmuda o sertão

 

velas a postos

sons despedidas

histórias de náufragos

ressurreição

 

o sol toma conta da face

que exprime o sertão

 

pipas a pino

ciranda de nuvens

varanda aurora

roda pião

     

o nu toma conta da face

onde mora o sertão (PEDROSA, 2005, 63)

 

O tempo e o lugar são indissociáveis da poeta. Sentimos o sertão e sentimos a cidade; sentimos a terra, o mar, o mangue, as calçadas, o dia e a noite. Viajamos ao universo poético de cada cena representada em sua escrita e temos a impressão de estar visualizando uma pintura nas imagens recriadas em cada verso do poema. “Um universo de tons e sobretons constrói a marca de um desenho.” (MARTINS, 2005, 127).

(...)

quero

pelos olhos da cidade

sentir cheiro de pão e fuligem

de brisa e de cimento

e testemunhar o precioso instante

em que o beija-flor afaga

a papoula aberta de par em par (PEDROSA, 2005, 24)

 

A dimensão espacial representa na poesia de Cida a consciência da ponte que liga a emoção, a memória e a observação sobre o cotidiano ao ambiente em que a poeta se define enquanto ser histórico, inserido em seu contexto cultural particular.

A poesia de Cida Pedrosa é um construto de emoções espacializadas a formar o verdadeiro cenário íntimo do eu a partir de um olhar observador que recorta da exterioridade o universo imagético da arte e a sua linguagem essencial, atuando como stilus que grava na rocha seu desenho e demarcando o mapeamento de múltipas paisagens imbricadas para emoldurar o ser. Uma poesia visual que se apresenta ao leitor numa sucessão de quadros capazes de atrair pela beleza plástica dos versos. (MARTINS, 2005, 124)

 

O espaço e a linguagem estão presentes na poesia de Cida de forma imbricada. Além da recriação de imagens a partir da palavra, ela também se destaca pelo rico trabalho da metalinguagem em seus versos.

entre pombos e putas construí poemas

 

a cidade era lúcida

a radiola de fichas juntava nossas coxas

os retalhos eram enfeites de salão (PEDROSA, 2005, 22)

 

Apresentando-se como mulher escritora da essência do ser feminino, Cida Pedrosa envolve-nos nas discussões do ser mulher em nossa sociedade; expõe tragédias, dores e sofrimentos. Constrói arquétipos e confidentes e não dispensa a representação da sensualidade e do erotismo no universo feminino.

meu amor

desde já te informo:

durmo de pernas abertas

e a cada lua

te espero

para plantar girassóis (PEDROSA, 2005, 97)

 

Em sua poesia, Cida Pedrosa reafirma a luta de tantas outras mulheres de seu tempo, e das mulheres do passado, pela liberdade de criação literária, o direito de se expor e de manifestar o seu olhar sobre o mundo, além de afirmar a sua decisão poética. Não se trata de um discurso feminista. Ao invés disso, sua poesia é uma resposta à censura imposta durante séculos sobre a literatura escrita por mulheres.

As filhas de lilith é o título do mais novo livro de Cida. Nele, a poeta constrói um abecedário de mulheres e tece suas faces a partir da reflexão sobre sua condição na sociedade: seus direitos, desejos, anseios, sensualidades, erotismos, tragédias, dores e ideologias. Ao mesmo tempo em que expõe os problemas dessas mulheres, ela reflete seus dramas psicológicos. Cida utiliza sua poesia para denunciar e discutir o disfarce da realidade que a sociedade tenta perpetuar através de uma cultura de hipocrisia e tabus para fingir que todos estão bem e são felizes.

Cida Pedrosa anuncia um universo a partir de si e também o de uma realidade deslocada, fraturada e desenraizada em sua vastidão e amplidão. (...) Uma escrita íntima onde revolve e arranca o pudor dos véus que teimam em esconder a humanidade mais humana. (...) A humanidade que é signo de uma dor. (...) Para Cida é preciso provocar e usar, abusar da palavra, que por vezes, jogam-na numa periferia onde jazem o silêncio e o conformismo, para des-imobilizar a dureza do gesso do bem-estar e do materialismo simplista, para revirar pelo avesso e re-significar os fatos, redimensionando assim o tempo da ocupação de novos espaços e novos desdobramentos sociais e humanos, ali onde a cultura resiste, é lugar de oposição e também lugar para iniciar uma reconsideração ética a partir daquele se vê diante de um mundo fragmentado e fissurado, porém aberto a vigorosas interpretações e estranhamentos.  (JUSSARA SALAZAR, 2009, 8-9)

 

Inquieta e incômoda, a voz de Cida Pedrosa mais uma vez ratifica que na literatura não há meio termo, mas decisões, afirmações, sobre de que lado o escritor está, em favor de quem ele luta, ou, em contrapartida, em que face ele se esconde. No caso da poesia de Cida, o grito contra a hipocrisia é retumbante.

As filhas de lilith são construídas a partir da visão sobre mulheres arquetípicas em nossa sociedade, simbolizando-as em suas condições cotidianas, em belezas e imperfeições. Talvez por isso todos os nomes, de angélica a zenaide, são escritos em letra minúscula. A representação das muitas angélicas, berenices, cecílias, graces, juanitas, ofélias, terezas...

As personagens do livro lílith são uma construção minuciosamente mapeada na cuidadosa busca de um rosto, o retrato falado, a descrição do “qualquer um ou uma” a cada página – inventário de um corpo que por si explode feminino.

As palavras reinscrevem sua condição na beleza cotidiana, expõem sua maquiagem, borrada acertadamente para ser o corpo falível e desfeito, para ser aquele da instância do que é mesmo mais humano. (SALAZAR, 2009, 8-9).

 

A escolha do título do livro remonta à inquietude da bela mulher criada por Deus no mito bíblico. Lilith teria sido feita de barro e à noite. Inconformada e questionadora, ela se revolta contra a submissão a Adão e representa a eterna divergência entre o masculino e o feminino. Salienta Salazar (2005, 8-9) que a lilith de Cida Pedrosa é “feita de carne, osso, sangue, vísceras, pó-de-arroz e batom, e articula as muitas dicções das mulheres, significando todas as muitas graces, wilmas, úrsulas, melissas, ofélias e dianas, entre tantas.”

Filosoficamente, poderíamos pensar que por se tratar de arquétipos de mulheres, na essência do ser mulher, as poesias estariam beirando o abstracionismo e a fragilidade. Porém, a poesia de Cida é construída a partir do real e ressignifica-o através da palavra em textos carregados de imagens do cotidiano.

A poesia de Cida é feita de um mundo marcado por imagens, matéria que ela usa para pensar sua geometria de versos cuidadosos, cuja feitura ela constrói com apego à palavra, com gosto pela linguagem, em busca da imagem mais essencial, mais palpável. (...) Para Cida qualquer fragmento do cotidiano poderá ser o material catado, às vezes com sublimação desmedida em que o simples ritual diário será amplificado. (SALAZAR, 2009, 8-9)

 

Heloísa Arcoverde (2009, 83), salienta a maturidade da linguagem e a riqueza do discurso poético presentes no livro As filhas de lilith: “É esta a sua emancipação poética: sem temer as palavras, ousar um dicionário de mulheres que de tão imperfeitas, parecem de carne e osso. De tão perfeitas se tornam literatura.”.

Cada poema em lilith é uma decisão de um tema e cada nome é a procura de uma face. Em cada poema uma discussão é acesa, um mundo revelado. Berenice, por exemplo, é a decisão de escrever sobre uma mulher que gosta de sexo em posição “de quatro”:

de costas

berenice se põe para o desejo

 

animal de quatro patas

exposto ao pássaro

e ao sabor das asas (PEDROSA, 2009, berenice)

 

Carregado de discussões culturais, o poema grace nos dá a sensação de viagem no tempo. A partir do hábito de tomar café, várias situações da mulher na sociedade, ao longo de várias gerações, são expostas e refletidas. A transmissão oral e a dinâmica de costumes de nossas sociedades são contextos trabalhados com maestria por Cida. Somos da geração de grace, favorecidos pela tecnologia. No entanto, parece-nos faltar tempo até para tomar café. O que realmente nos faz falta é a sabedoria de sebastiana.

sebastiana coava café muito bem

desde menina aprendeu o mantra

com sua mãe florisminda

 

os grãos eram escolhidos na feira

em um ritual de sabedoria

(...)

estela côa café muito bem

soube do ritual

por sua mãe maria

e de histórias velhas

de uma certa bisavó florisminda

(...)

grace faz café muito bem

leu as instruções no vidro de café solúvel

e lembra pouco

as recomendações da mãe estela

 

o café é feito na hora

3 colheres pequenas de pó

e 10 gotas de adoçante

 

prepara-o no copo descartável

antes de correr para a faculdade

e enfrentar o mestrado de história (PEDROSA, 2009, grace)

 

Em juanita, a escrita é a representação da dor do filho perdido. A voz poética contra o silêncio. O arquétipo de todas as mães que diariamente perdem seus filhos como vítimas de nossa cruel realidade social, frutos de um sistema baseado no medo e na negação dos direitos básicos do ser humano. Nesse poema, a partir do grito de resistência e da luta contra o silêncio das mães na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, na Argentina, Cida levanta sua voz contra a dor, em favor do direito de ser livre e expressar-se no mundo.

a dor de juanita

não bastava-se em si mesma

(...)

e de tão dor

na dor não se basta

e de tão dor

ocupa o mundo

em barulho e resistência

 

a dor de juanita acende a dor

contra o silêncio

e o lenço do filho continua na cabeça

para ser acenado na hora da partida (PEDROSA, 2009, juanita)

 

Khady representa a repressão social da sexualidade feminina. Constrói a negação do prazer e a dor da prática brutal da excisão, na África. A face de khady é escrita em homenagem à modelo de mesmo nome, que teve o clitóris cortado e montou uma ONG que discute a excisão em todo o mundo, combatendo essa prática.

(...)

a morada de vênus

foi cortada para o bem de toda a tribo

e a felicidade da fé

 

no lugar do amor

um espinho foi cravado

e no sangue de donzela

foram jogadas cinzas (PEDROSA, 2009, khady)

 

Melissa “sabia-se mulher desde a infância” (PEDROSA, 2009, melissa) apresenta que o ser mulher não é simplesmente uma questão de gênero, nascer ou não com o sexo feminino, mas uma questão do sentir-se fêmea e feminina, uma questão muito mais de espírito e sensibilidade do que biológica.

Angélica é o arquétipo da mulher completíssima em si mesma. Misteriosa e sensual. Mais do que uma discussão sobre o lesbianismo, angélica é a mulher que não precisa de homem para sentir prazer.

o pênis de angélica

era de plástico

passou a vida a esfregar-se no espelho

 

eis a sina

mulher ou homem

 

injusto desígnio

para quem precisa-se

inteiro por dentre as coxas

 

voz rouca sob os lençóis

desejo de iguais

porra

bocetas também são objetos de encaixe (PEDROSA, 2009, angélica)


 A participação de Cida Pedrosa na cena literária em Pernambuco transcende o espaço da capital do Estado e espalha-se por muitas outras cidades. Realizamos o acompanhamento do lançamento de seu livro As filhas de lilith na cidade do Recife, em maio de 2009, e na cidade de Garanhuns, em junho do mesmo ano.

A autora escolheu a cidade de Garanhuns para lançar As filhas de lilith porque tem um vínculo enorme com os movimentos literários dessa cidade, perceptível em suas publicações no suplemento literário de Garanhuns, o Mafuá, e em seu projeto de recital itinerante Outras Paradas, executado durante o Festival de Inverno de Garanhuns de 2008. Sua pesquisa literária, com o projeto Biopoética Pernambucana, culminou na construção de um glossário virtual e interativo de cento e dez links (verbetes) que correspondem individualmente a cento e dez poetas que fizeram/fazem literatura em Pernambuco, dos quais vários são de Garanhuns.

Pudemos perceber que na cidade de Garanhuns, muito mais do que um lançamento de um livro, As filhas de lilith serviu para aguçar a percepção de que vivemos sob uma censura disfarçada. Literatura que expõe as várias faces da situação da mulher em nossa sociedade e, por isso, inquieta e incômoda, foi proibida de ser interpretada para o público presente à cerimônia de lançamento da obra. Os textos que seriam encenados no espetáculo de mesmo nome do livro pelo grupo Nós do Canto foram surpreendentemente censurados enquanto os declamadores faziam o ensaio geral para a apresentação na véspera do lançamento do livro. A coordenação da instituição que promoveu o evento temia que o recital ridicularizasse a elite intelectual de Garanhuns. Quem foi ao lançamento no dia 16 de junho de 2009 nunca soube o que acontecera nos bastidores no dia anterior.

O que se comprovou foi que ainda existem instituições em pleno século XXI, vistas pela sociedade como preocupadas com a arte e a cultura, que promovem uma censura disfarçada e proíbem a veiculação de alguns tipos de textos literários.

Além da análise da produção literária e do acompanhamento do lançamento de seus últimos trabalhos para o público, o projeto Biopoética Pernambucana e o livro As filhas de lilith, pudemos realizar uma entrevista com Cida Pedrosa em sua residência, em abril de 2009. Discutimos sobre a sua origem, sua literatura e sua trajetória de luta em favor dos direitos humanos. A partir de seu depoimento emocionante, pudemos ratificar nossa impressão sobre sua obra, sentir a força de sua literatura e observar o poder de sua voz provocadora, inquieta e incômoda.

A poesia de Cida Pedrosa representa a confirmação de que na literatura não há meio termo. Em suas palavras, revela: a minha literatura ou se gosta ou não se gosta[1] (informação verbal). Uma literatura que causa medo e espanto por expor o que poucos têm coragem de dizer e por afirmar-se enquanto grito de denúncia. Uma provocação aos que preferem continuar atrás da máscara da hipocrisia.

Ressaltando o valor da poeta Cida Pedrosa para a história da literatura escrita por mulheres em Pernambuco, salientamos que este trabalho não encerra as discussões sobre sua produção literária, mas abre espaço para que mais pessoas possam pesquisá-la.

 

Referências


[1]   PEDROSA, Cida. Trecho de sua fala no lançamento do livro As filhas de lilith, na cidade Garanhuns, em 16 de junho de 2009.

 

ARCOVERDE, Heloísa. Carta à autora. In: PEDROSA, Cida. As filhas de lilith. Rio de Janeiro: Calibán, 2009. p. 83.

CAMAROTTI, Marco. Prefácio do livro. In: PEDROSA, Cida. O Cavaleiro da Epifania. Recife: Ed. do Autor, 1986. p. 7.

CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2004. 272p.

MARTINS, Eduardo. A poesia que se vê. In: PEDROSA, Cida. Gume. Recife: Ed. do Autor, 2005. p. 124-127.

MELO, Alberto da Cunha. A têmpera de Cida. In: PEDROSA, Cida. Gume. Recife: Ed. do Autor, 2005. p. 122.

MONTEIRO, Ângelo. Orelha do livro. In: PEDROSA, Cida. O Cavaleiro da Epifania. Recife: Ed. do Autor, 1986.

MORAES, Raimundo. Contracapa do livro. In: PEDROSA, Cida. O Cavaleiro da Epifania. Recife: Ed. do Autor, 1986.

PEDROSA, Cida. O Cavaleiro da Epifania. Recife: Ed. do Autor, 1986. 47p.

 

______. Gume. Recife: Ed. do. Autor, 2005. 130p.

 

______. As filhas de lilith. Rio de Janeiro: Calibán, 2009. 90p.

 

SALAZAR, Jussara. Entre Angélica e Zenaide. In: PEDROSA, Cida. As filhas de lilith. Rio de Janeiro: Calibán, 2009. p. 8-9.

 



[1]    Especialista em Programação do Ensino de Língua Portuguesa, pela Universidade de Pernambuco – UPE – Campus Garanhuns. Professora de Língua Portuguesa. Aluna pesquisadora do NESC-UPE.

[2]    Professora Doutora pela UFPE. Líder do Núcleo de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa - NESC – UPE. Educadora em Literatura e Direitos Humanos. Orientadora deste trabalho.

[3]   PEDROSA, Cida. Trecho de sua fala no lançamento do livro As filhas de lilith, na cidade Garanhuns, em 16 de junho de 2009.

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A Solidão Espaçosa

1964: Golpe também na poesia

O CCC em Pernambuco

Manuel Bandeira: O menino-poesia… eterno!

De resgates e louvores

A Livro 7 e a Geração 65

Eugénio de Andrade: Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa

Terra: pátria de H.D. Thoreau e Joaquim Cardozo

Origens da literatura de cordel

A identidade do Brasil em Bandeira

Oscar Wilde - A paixão de uma vida

Coisas e loisas da literatura - II

Sobre versificação

Camila Ribeiro

Coisas e loisas da literatura - I

Tempos de delicadeza e paixão

Cento e vinte anos de Bandeira

Para desvendar a poesia de Lucila Nogueira

Lourival Batista Patriota, O Louro do Pajeú e a árvore da poesia

Arquivos

Sobre muros e pontes

Viagem, literatura e política

Antonio Bivar na corte da contracultura

Escrita viajante

Poesia e música

Inspiração x Transpiração

Cuia de poeta cego / Tem verso de toda cor

Coisas do povo e de Momo

Feliz 2007

Palavras ao Plenilúnio

Retrato de Pernambuco

Pernambuco, prosa, poesia e povo.

Parabéns, Recife

Recitata

O cordel nas entranhas do Recife

Poetas em fim de feira

Erro


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Editores:

 Sennor Ramos, Raimundo de Moraes e Cida Pedrosa